Agroflorestas auxiliam na recuperação de áreas afetadas por enchentes no Rio Grande do Sul

Arroio do Ouro, no interior do município de Estrela, foi uma das comunidades que mais sofreram com as enchentes que causaram tragédias no Rio Grande do Sul em...

Agroflorestas auxiliam na recuperação de áreas afetadas por enchentes no Rio Grande do Sul
Agroflorestas auxiliam na recuperação de áreas afetadas por enchentes no Rio Grande do Sul (Foto: Reprodução)

Arroio do Ouro, no interior do município de Estrela, foi uma das comunidades que mais sofreram com as enchentes que causaram tragédias no Rio Grande do Sul em 2024. As águas do Rio Taquari varreram o local, destruindo propriedades e causando a morte de mais de 60 pessoas no Vale do Taquari. Agora, a região, que foi o maior símbolo da catástrofe, está recebendo os primeiros projetos para recuperação do solo e da produção. A família Mallmann, uma das tantas de Arroio do Ouro que tiveram perdas com as inundações, precisou se abrigar em cima do telhado de sua casa enquanto as águas tomavam conta da propriedade, que tem 60 hectares e fica às margens do Rio Taquari. Antes da tragédia, a família investia na produção de grãos e na pecuária leiteira. A granja tinha 30 vacas e produzia em torno de 500 litros de leite por dia. Tudo mudou com a enxurrada. “Perdemos rebanho, equipamentos, galpões, máquinas, móveis da casa. Ficamos sem renda”, lembra o produtor Fernando Mallmann. Sem dinheiro para voltar a apostar no leite, até porque tinham receio de que, se ocorresse outra inundação, eles acabariam perdendo os animais e o investimento, os Mallmann decidiram centrar os esforços no cultivo de grãos. A mudança não foi fácil. As terras da lavoura ficaram cobertas por lodo e detritos da enchente, e as águas arrancaram a mata na beira do rio. “Ser agricultor já não é fácil, estamos acostumados com fases difíceis, mas essa foi dose”, diz José Luiz Mallmann, pai de Fernando. O desânimo com a situação das terras afetou muito os moradores de Arroio do Ouro. Em sua passagem pela comunidade, a Globo Rural encontrou muitas casas abandonadas e galpões que não foram reconstruídos. “Mais de 20 casas sumiram, dunas de areia se formaram nas terras, algumas pessoas acabaram morrendo de complicações e doenças causadas pela água, e muita gente foi embora daqui. Nós mesmos não abandonamos tudo porque tivemos muita ajuda do povo brasileiro, que enviou doações, roupas, alimentos, móveis e, depois, recursos para podermos drenar as lavouras e fazer o plantio”, conta José Luiz. Para enfrentar a situação, a família resolveu abrir as porteiras para um projeto que uniu pesquisa, extensão e o conhecimento de quem vive da terra. Em novembro do ano passado, a propriedade dos Mallmann tornou-se a primeira a implantar uma agrofloresta do Plano Recupera Rural RS, uma iniciativa com apoio de Embrapa, Emater/RS, Projeto Quintais Orgânicos de Frutas e Yara Brasil. Fernando Mallmann, entre o pai, José Luiz (à esq), e o vizinho Silvio Greogory: área destruída pelas inundações agora tem lavoura de feijão Fredy Vieira Ao apostar no sistema agroflorestal, o projeto quer, de forma simultânea, gerar produção agrícola, ajudar a conservar o solo e recuperar o meio ambiente. O plantio das árvores da agrofloresta na propriedade (que virou uma Unidade de Referência Tecnológica do projeto) ocorreu em novembro, mas o trabalho já havia começado em julho, com a etapa do planejamento participativo. Nessa fase, pesquisadores, técnicos e agricultores caminharam juntos pela área para observar os impactos da ação das águas, os desafios e as oportunidades. A definição das ações tomou como base a realidade local, considerando solo, margem do rio e expectativas da família para o futuro. A implantação seguiu princípios da sucessão ecológica, o nome que se dá à sequência cronológica de eventos naturais que ocorre em um processo de repovoamento de uma área. No caso de uma tragédia ambiental como a do Vale do Taquari, as gramíneas são as primeiras espécies a reaparecer no solo. Elas atraem insetos, que ajudam na polinização e estimulam o reaparecimento de arbustos; depois, surgem os animais de porte maior; e, por fim, no último estágio, é que as árvores retornam. O trabalho na agrofloresta dos Mallmann obedeceu a essa lógica, mas com adaptações, como o plantio simultâneo de gramíneas e árvores. As ações incluíram uso de composto orgânico no preparo do solo, marcação da área e plantio de árvores nativas, como sarandi, maricá, salso-crioulo e caliandra, para recompor a mata ciliar e proteger o solo. Essas práticas aceleram a sucessão ecológica, essencial para o processo de recuperação de áreas degradadas. Com um ambiente mais rico em biodiversidade, a saúde do solo melhora – e os agricultores podem obter renda com a produção sustentável. Initial plugin text A propriedade recebeu também 28 árvores frutíferas, como goiabeiras, pitangueiras e laranjeiras, uma ação do Projeto Quintais Orgânicos de Frutas. Junto às árvores ocorreu o plantio de forrageiras, milho, feijão e melancia, entre outras culturas. Foi uma ideia boa. As árvores na barranca do rio atacam a enchente e ajudam a proteger a propriedade. E se a produção de frutas for boa, podemos vender para complementar a renda que temos dos grãos”, observa Fernando. Os primeiros resultados do projeto já começaram a aparecer. “Os pés de figo ainda são pequenos, mas vão dar uma boa produção nesta safra”, comemora o produtor. Agrofloresta: um projeto de recuperação A escolha da agrofloresta para o projeto de recuperação deveu-se à capacidade que sistemas do gênero têm de aumentar a biodiversidade, recuperar o solo e reter água. “Estamos propondo um modelo de restauração que une produção e conservação. O agricultor ajuda a restaurar as margens do rio e, ao mesmo tempo, tem sua própria produção de alimentos”, diz Ernestino Guarino, pesquisador da Embrapa Clima Temperado. Ele espera que seja possível replicar a experiência dos Mallmann em outras propriedades que tiveram perdas com as enchentes. “Depois da tragédia, muitos produtores passaram a ter medo de plantar árvores perto do rio por acharem que elas podem causar destruição se forem levadas pela água. Mas recompor a mata ciliar, a proteção vegetal, é muito importante”, afirma o pesquisador. Durante a enchente, Silvio Antônio Gregory, vizinho dos Mallmann, ficou dois dias e duas noites sobre o telhado de casa. Em seu sítio, de 2,5 hectares, ele perdeu a sua pequena criação de bovinos. Além disso, boa parte de suas terras ainda sofre com o acúmulo de areia. O produtor Silvio Antônio Gregpry: planos de adotar agrofloresta e implantar pomares comerciais de frutíferas Fredy Vieira O produtor é um dos que demonstram entusiasmo com a iniciativa da agrofloresta. Já com a ideia de implantar pomares comerciais de frutíferas, Gregory está conversando com a Embrapa e a Emater para adotar um sistema semelhante ao dos Mallmann. Minha área é muito pequena para plantar grãos ou fazer uma criação maior de animais. Ou mudo de atividade, ou abandono a agricultura. Então, estou apostando nas frutas, conta. O produtor avalia com especialistas quais espécies são mais adequadas para suas terras e espera estruturar um projeto até agosto. Fernando Mallmann espera que a agrofloresta da família estimule outros produtores de Arroio do Ouro a recuperar suas terras. “Muitas pessoas que foram embora estão com depressão, gostariam de retornar. O produtor Fernando Mallmann às margens do Rio Taquari: as árvores ajudam a proteger a área da propriedade em caso de nova enchente Fredy Vieira Os projetos que integram a agrofloresta pioneira Recupera Rural RS Plano de ações emergenciais e estruturantes que tem como objetivo apoiar a recomposição de paisagens e a recuperação agroprodutiva sustentável do Rio Grande do Sul. Estruturado pelo Ministério da Agricultura, por meio da Embrapa, o plano conta com a participação de parceiros da iniciativa privada e dos poderes públicos federal, estadual e municipal. A iniciativa identifica áreas e projetos prioritários para investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação e também para dar suporte técnico-científico à tomada de decisões de produtores rurais e agentes do Estado, apoiar políticas públicas de prevenção contra desastres climáticos e para devolver capacidade produtiva aos sistemas agroalimentares e florestais após as enchentes. Programa Operação Terra Forte É uma iniciativa de recuperação de solos do governo do Rio Grande do Sul, executada pela Emater-RS. O programa incentiva práticas sustentáveis e posiciona a agricultura familiar como eixo estratégico na reconstrução do estado. O Fundo de Reconstrução do Rio Grande do Sul (Funrigs) financia a iniciativa, com investimento inicial de R$ 300 milhões. O governo do estado estima que o programa vai beneficiar diretamente 15.000 produtores da agricultura familiar e, por meio da difusão tecnológica, pode favorecer até 150.000 unidades produtivas. Quintais Orgânicos O programa Quintais Orgânicos tem o objetivo de incentivar o plantio de espécies frutíferas em áreas urbanas e rurais. O projeto, que está em funcionamento no Rio Grande do Sul há 22 anos, é uma iniciativa da Embrapa Clima Temperado e conta com apoio da Philip Morris Brasil.