El Niño 'Godzilla'? O que os especialistas dizem sobre o fenômeno climático
O aquecimento das águas do Oceano Pacífico voltou ao centro das atenções e já mobiliza meteorologistas. Com sinais claros de formação do El Niño, modelo...
O aquecimento das águas do Oceano Pacífico voltou ao centro das atenções e já mobiliza meteorologistas. Com sinais claros de formação do El Niño, modelos climáticos internacionais indicam que o fenômeno pode ganhar força ao longo dos próximos meses e influenciar o clima no Brasil até 2027. Expressões como “Super El Niño” e “El Niño Godzilla” passaram a circular para descrever o avanço do aquecimento no Pacífico. Mas, segundo especialistas, o apelido está mais ligado ao impacto midiático do que à classificação científica. De acordo com a meteorologista Desirée Brandt, termos como “Godzilla” não fazem parte da nomenclatura oficial utilizada por centros climáticos como a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), principal referência mundial no monitoramento do El Niño. Leia mais: Chances de El Niño nos próximos meses passam de 90%, diz agência dos EUA Por que o El Niño preocupa a agricultura no Sul do Brasil? El Niño e seus impactos no Brasil: o que esperar para o clima e o agro “O termo surgiu muito mais para chamar atenção”, explica, em entrevista à Globo Rural. “Na ciência, trabalhamos com categorias que vão de El Niño fraco até muito forte.” A avaliação é compartilhada pelo meteorologista Celso Oliveira, da empresa Tempo Ok, que explica que o apelido costuma ser usado popularmente para descrever episódios excepcionalmente intensos de aquecimento no Pacífico. “Essa denominação El Niño 'Godzilla’ normalmente aparece para eventos muito fortes. Tivemos episódios intensos em 1982 e 1983, em 1997 e 1998, além de 2015 e 2016”, afirma. “O mais intenso da história recente aconteceu entre 1877 e 1878.” O que é o El Niño? O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Essa mudança interfere diretamente na circulação atmosférica e altera padrões de chuva, temperatura e formação de eventos extremos em diferentes regiões do planeta. No Brasil, os impactos costumam variar conforme a região. Historicamente, o Sul registra aumento das chuvas, enquanto Norte e Nordeste enfrentam maior risco de seca. Já o Sudeste e o Centro-Oeste tendem a alternar períodos de chuva intensa com ondas prolongadas de calor. El Niño 2026 já começou? Segundo Desirée Brandt, o aquecimento das águas do Pacífico já indica a formação do El Niño, que deve se consolidar oficialmente nos próximos meses. De acordo com o último relatório da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), existe cerca de 96% de probabilidade de o evento permanecer ativo até o início de 2027. Neste primeiro momento, o aquecimento deve se desenvolver entre intensidade fraca e moderada, mas os modelos climáticos apontam possibilidade de fortalecimento ao longo do segundo semestre. As projeções para o período entre novembro e janeiro indicam um cenário de aquecimento mais intenso no Pacífico até o fim do ano. Apesar disso, especialistas destacam que esse processo acontece de forma gradual. “Oceano e atmosfera são sistemas dinâmicos e fluidos”, explica Desirée. “Não existe um botão que transforma rapidamente um El Niño comum em um superevento.” Pode ser um dos mais fortes da história? Segundo Celso Oliveira, alguns modelos indicam a possibilidade de um aquecimento excepcional no Pacífico. “Existe a possibilidade de esse El Niño de 2026 e 2027 ultrapassar eventos históricos, mas ainda precisamos monitorar”, afirma. “São poucas as simulações que mostram esses extremos.” O meteorologista explica que a maioria dos modelos trabalha atualmente com a hipótese de um El Niño forte, mas sem atingir os níveis mais extremos registrados historicamente. “Grande parte das projeções ainda aponta um aquecimento mais moderado, abaixo do que normalmente caracteriza um super El Niño”, explica. Mesmo sem confirmação de um evento histórico, especialistas alertam que o contexto climático atual pode ampliar os impactos. “O El Niño está se formando em um planeta mais quente”, afirma Desirée Brandt. “Isso potencializa os efeitos climáticos.” Com temperaturas globais mais elevadas, aumenta a chance de ondas de calor intensas, secas prolongadas e episódios de chuva extrema concentrados em poucos dias. Segundo os especialistas, o comportamento do Oceano Atlântico também será decisivo para definir a intensidade dos impactos no Brasil. O que pode mudar no clima do Brasil Os primeiros efeitos já começam a aparecer principalmente na região Sul, onde a previsão aponta chuva acima da média nos próximos meses. Segundo os meteorologistas, esse padrão deve persistir ao longo do segundo semestre, aumentando o risco de temporais, enchentes e deslizamentos. Ao mesmo tempo, outras regiões do país devem enfrentar calor mais intenso e períodos secos mais prolongados. No Sudeste e no Centro-Oeste, por exemplo, a tendência é de chuvas mais irregulares, com temporais concentrados em poucos dias e longos intervalos de calor. Já no Norte e em partes do Nordeste, cresce o risco de estiagem.