Embrapa supera metas de desenvolvimento do trigo no Cerrado
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) superou as metas de desenvolvimento da cultura do trigo no Cerrado. Quem afirma é Jorge Lemanski, chef...
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) superou as metas de desenvolvimento da cultura do trigo no Cerrado. Quem afirma é Jorge Lemanski, chefe-geral da Embrapa Trigo. Lançado em 2021, o plano para o cereal atraiu empresas privadas de sementes, animou os produtores e resultou em ganho de área, de toneladas e de produtividade. Com investimento de R$ 2,9 milhões em pesquisa e transferência de tecnologia, teve ações nos Estados de São Paulo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Bahia e no Distrito Federal, o chamado Brasil Central. O TED (Termo de Execução Descentralizada) do Trigo Tropical, aprovado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), tinha como objetivo aumentar a área plantada no Cerrado de 252 mil hectares para 353 mil hectares até 2025, com uma produção extra de 300 mil toneladas e uma desoneração de R$ 450 milhões na balança comercial do grão. Initial plugin text “Quando a gente fala na soma dos 4 anos, em vez de aumentar 100 mil hectares, tivemos um aumento de 501 mil hectares. A produção passou de 640 mil toneladas para 1,8 milhão de toneladas e importamos R$ 2,7 bilhões a menos”, diz Lemanski. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) relativos ao período entre 2018 e 2024 apontam um crescimento de área de 119% e de 95% na produção de trigo tropical. Em 2024, a área plantada bateu o recorde de 450 mil hectares. No ano passado, recuou, devido à seca na janela de plantio. Mas a produtividade aumentou quase 20%. Segundo a Conab, a produção foi de 1,091 milhão de toneladas, ou 13,86% do volume total nacional, de 7,873 milhões de toneladas. Para este ano, a companhia estima queda de 5,2% na área plantada no Brasil e redução de 12,3% na produção. Para o Cerrado, a estimativa é de plantio de 361 mil hectares. A Embrapa, que trabalha com melhoramento genético para o trigo do Cerrado desde a década de 80, prevê de 350 mil a 400 mil hectares, sendo 60 mil irrigados. Os avanços e desafios da produção do trigo tropical serão debatidos em fórum da Embrapa, em Brasília, na próxima quarta-feira (25/3). No evento, produtores de Goiás e Minas vão contar suas experiências com a cultura e será apresentado um novo plano de investimento em pesquisas e transferência de tecnologia para o período 2026-30 visando tornar o trigo tropical mais competitivo. Potencial Lemanski diz que a produção no Cerrado deve avançar de acordo com a demanda nacional e externa, mas a cultura tem o potencial de ocupar 6,7 milhões de hectares em áreas acima de 800 metros nos seis Estados e no DF. Se o plantio for em terras com altitude menor, entre 600 e 800 metros, a área potencial aumenta mais 7,2 milhões de hectares. O chefe da Embrapa diz que o trigo entra com perfeição no sistema de rotação de culturas melhorando o solo, mas sofre a concorrência do milho e do sorgo. No caso do irrigado, disputa área ainda com hortaliças e feijão. O plantio do sequeiro começou em março e o do irrigado vai iniciar em abril. Segundo Lemanski, uma vantagem do trigo de Cerrado em relação ao grão produzido na região Sul, que concentra mais de 80% do volume do país, é que ele é colhido com tempo seco. A mudança climática, diz, também abre mais oportunidade para ampliar o cultivo no Cerrado porque a cultura tem custo menor e risco também menor que a segunda safra de milho. “Os números mostram que o volume de chuvas está caindo no Brasil Central, com aumento de dias secos. Já no sul do Brasil, as precipitações aumentaram muito nos últimos anos”, diz o chefe-geral da Embrapa Trigo. Lemanski diz que, com uma produtividade acima de 100 sacas por hectare, o trigo irrigado do Cerrado se coloca como boa alternativa na rotação. Se alcançar 125 sacas, já dá uma margem, mas há produtores que usam mais tecnologia e alcançam até 160 sacas, como foi o caso do recordista Paulo Bonato. Também é boa opção no sequeiro porque produz de 35 a 60 sacas por hectare, mas seu custo de produção fica abaixo de 20 sacas. Ele destaca que o trabalho de desenvolvimento genético de cultivares específicas desenvolvido pela Embrapa para o Cerrado atraiu a iniciativa privada. “Hoje, empresas que também estão desenvolvendo sementes mais resistentes ao calor e à brusone, o que melhora a qualidade do material genético. Além disso, a cadeia de produtores de sementes está mais estruturada”, explica. Neste ano, a Embrapa está lançando duas novas variedades: a BRS Cracker, específica para a produção de biscoito, e a BRS Savana, indicada para o sequeiro, com mais tolerância à brusone e ao estresse hídrico. A variedade BRS 264, mais indicada para o plantio irrigado, mas versátil também no sequeiro, se mantém como a mais plantada na região. “A brusone é o grande gargalo do trigo no Cerrado. Estamos trabalhando com o Centro Internacional de Melhoramento de Trigo e Milho do México, onde não há brusone, para desenvolver novas variedades mais resistentes”, afirma Lemanski. A doença foi identificada no Brasil em 1986 e se espalhou também pela região sul, além de Bolívia e Bangladesh. As perdas da lavoura severamente atingida podem chegar a 100%, alerta o pesquisador. Initial plugin text Pablo Rodrigues de Souza, gerente-executivo de licenciamento soja e trigo Cerrado da Biotrigo, diz que a empresa trabalha há muitos anos fornecendo sementes para o trigo do Cerrado, mas, há três anos, com a compra da Biotrigo pela multinacional argentina GDM, o foco do melhoramento genético das sementes mudou. “Antes, a Biotrigo trazia as variedades do sul para fazer adaptação. Agora, trocamos 100% do portfólio por variedades exclusivas para o Cerrado focadas em resistência à brusone sem deixar de lado a qualidade, adaptação no sequeiro e potencial de produtividade no irrigado”, diz. Souza afirma que o sul de Minas é o ambiente com mais potencial produtivo para o cultivo em sequeiro e a região de Brasília tem maior tolerância a doenças e ao calor. Segundo ele, a busca constante da Biotrigo é por produtividade acima de 100 sacos por hectare no irrigado e já há vários casos de produtores que superaram essa marca. Para o sequeiro, a empresa fornece as variedades Spectra, de trigo melhorador, e a Valente. Neste ano, uma nova cultivar vai substituir a Calibre, adaptada do sul e plantada em irrigado e sequeiro. Segundo o gerente-executivo, a TBio Conde tem qualidade superior para o moinho, rende 14% a mais que a BRS 264 e 8% mais que a Calibre, com produtividade média de 110 a 120 sacos por hectare. “No ano passado, houve quebra de safra no Cerrado por conta da seca. O produtor perdeu a janela de plantio do sequeiro e não arriscou, só investiu no irrigado. Exceção foi o sul de Minas e o Triângulo Mineiro. Este ano, eles já estão plantando e a produção deve crescer”, explica Souza. Ele acrescenta que a GDM não revela os investimentos no trigo, responsável por 7% do faturamento da empresa (que tem como carro-chefe as sementes de soja, além de milho e girassol), mas considera que a cultura pode ser uma das principais do Cerrado no futuro, ocupando na safrinha pelo menos 2,6 milhões de hectares cultivados com soja em áreas acima de 800 metros. “O trigo do Cerrado é uma boa opção para o milho e sorgo, produz palhada de qualidade, tem eficiência na rotação de culturas, reduz os nematóides do solo, tem qualidade indústrial comparada ao grão cultivado na Austrália e Canadá e pode ser colhido na seca.” A brusone é o grande gargalo do trigo no Cerrado. Estamos trabalhando com o Centro Internacional de Melhoramento de Trigo e Milho do México, onde não há brusone, para desenvolver novas variedades mais resistentes” Souza diz que o produtor de trigo do Cerrado ainda tem que aprender a plantar e comercializar o grão, mas os principais desafios do avanço da cultura na região são a falta de moinhos olhando para o mercado local e os problemas de logística. “Cerca de 35% da moagem nacional está no Cerrado e no Norte e Nordeste, mas boa parte dessas indústrias importa o trigo do Canadá e Argentina. Uma mudança é que já temos trading comprando trigo do Cerrado e vendendo para moinhos de São Paulo e Paraná”, diz o gerente, acrescentando que as questões fiscais também precisam ser estudadas e melhoradas. No Cerrado, a Biotrigo tem unidades no sul de Minas, no Triângulo Mineiro e no entorno de Brasília, além de uma unidade de seleção de variedades para resistência à brusone em Rio Verde (GO). No total, a equipe conta com cerca de 50 pessoas. Transgênico Desde 2022, a Embrapa faz testes com o trigo transgênico em sua unidade de Brasília para comparar com a planta que não tem o gene HB4. A variedade, desenvolvida pela empresa argentina Bioceres, com quem a Embrapa tem um acordo de cooperação técnica, é mais resistente à seca e ao herbicida glufosinato de amônio. Segundo Lemanski, pode haver novidades em 2027. “Nossa expectativa é que o trigo transgênico consiga a mesma produtividade do convencional e possa ser relevante para uma segunda safra se a relação comercial for compatível.”Souza, da Biotrigo, diz que a empresa faz testes com o trigo transgênico na Argentina, mas não tem nenhuma previsão de lançamento da semente. Embora enfrente muita resistência, o plantio do trigo transgênico no Brasil foi aprovado em 2023 pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CNTBio), responsável por analisar a segurança do alimento para a saúde humana e o meio ambiente.