Entenda como intoxicação provocou a morte de 48 vacas no Rio Grande do Sul

Cerca de 80 dias depois da morte de 48 vacas em sua propriedade, a família Witter, de Novo Xingu, no norte do Rio Grande do Sul, tenta retomar a produção lei...

Entenda como intoxicação provocou a morte de 48 vacas no Rio Grande do Sul
Entenda como intoxicação provocou a morte de 48 vacas no Rio Grande do Sul (Foto: Reprodução)

Cerca de 80 dias depois da morte de 48 vacas em sua propriedade, a família Witter, de Novo Xingu, no norte do Rio Grande do Sul, tenta retomar a produção leiteira. Após uma campanha de ajuda, 23 animais foram doados aos criadores, sendo 17 deles vacas em lactação. Com isso, a produção de leite da propriedade já atinge de 450 a 500 litros por dia - menos da metade dos 1.200 litros diários antes da tragédia, mas é o início de uma recuperação, afirma Ana Paula Witter, filha de Wanderlei Witter, o proprietário do rebanho. “Hoje já temos 21 vacas em lactação. Nossa expectativa é que, até maio, a gente consiga chegar a mil litros por dia”, afirma a produtora. Vacas doadas para família Witter, de Novo Xingu (RS) Ana Paula Witter/Arquivo pessoal O que causou as mortes A morte das 48 vacas leiteiras aconteceu entre 2 e 4 de janeiro. “Todas apresentavam os mesmos sintomas, babavam, ficavam sem ar, deitavam e não levantavam mais”, explica Ana Paula. O caso gerou um prejuízo estimado em R$ 600 mil. Após diversas análises de vísceras, água, ração, silagem e pastagem, laudos da Universidade de Passo Fundo (UPF) confirmaram a principal suspeita: uma intoxicação alimentar por excesso de nitrito (um composto de nitrogênio e oxigênio que é tóxico em altas concentrações) provocou a morte dos animais. O acúmulo do produto químico provavelmente ocorreu devido à sequência de dias chuvosos e nublados, que prejudicaram a realização de fotossíntese pela pastagem. O risco de intoxicação das plantas ocorre principalmente quando ocorre uma seca seguida por chuvas, ou um período grande de dias nublados ou chuvosos, seguidos por dias de sol. “Nesses casos a pastagem poderá ter um excesso de nitrato nas suas folhas, principalmente se tiver sido adubada”, explicou a zootecnista Maíza Scheleski da Rosa, superintendente técnica substituta da Associação de Criadores da Gado Holandês do Rio Grande do Sul (Gadolando). Quando o animal consome essa pastagem, o nitrato é convertido em nitrito no rúmen, e depois em amônia. “O problema acontece quando a produção de nitrito é mais rápida do que a sua conversão em amônia. Ele é rapidamente absorvido pelo rúmen e entra na corrente sanguínea, impedindo que o sangue leve o oxigênio para o corpo. A vaca respira normalmente, mas está sem oxigênio por dentro”, explica a zootecnista. Vacas morreram por intoxicação por nitrito Ana Paula Witter/Arquivo pessoal Mudanças na propriedade Apesar de as análises de solo não terem registrado alterações significativas, a família Witter não quis arriscar a sorte novamente. A área de pastagem onde ocorreram as mortes foi dessecada e transformada em uma lavoura de milho. Os animais em lactação não estão se alimentando no pasto, mas sim apenas recebendo ração diretamente no coxo. “Isso fez nossos custos aumentarem justamente em uma época em que o preço do leite está muito baixo”, comenta Ana Paula. Segundo a produtora, as perdas financeiras não permitem que a família faça investimentos para adequar permanentemente a produção para um sistema free stall (confinamento com maior conforto animal e produtividade). “Estamos tirando, em média, 25 litros diários de leite por vaca. Nossa lucratividade vai ser menor, mas investir em um barracão novo para elas agora é impossível”, destaca Ana Paula. “Estamos com muitas dívidas, e tínhamos investido muito nas vacas que morreram. A gente ia conseguir dar o giro e pagar, mas agora mudou nossa rota, temos que pensar muito como fazer daqui para frente”, comenta. Relembre o caso O caso começou em 2 de janeiro. Naquele dia, às 05h30, antes da ordenha, o criador Vanderlei Witter encontrou quatro vacas mortas ao conferir o rebanho. A partir disso, a tragédia foi aumentando. No fim da tarde, 15 animais já haviam morrido. Mas o problema continuou. Na manhã do sábado (3/1), outras 16 vacas estavam mortas. Até o domingo (4/1), todas as 48 vacas em lactação da propriedade foram perdidas. Os animais foram jogados em valas e cobertos com cal. Os únicos bovinos que não morreram foram 50 novilhas e três vacas adultas que estavam secas (não produzindo leite), e que não estavam no mesmo piquete das que estavam em lactação. Campanha de ajuda e recuperação Apesar da tragédia, uma campanha de apoio foi criada a fim de arrecadar doações de animais e dinheiro. “Recebemos ajuda de pessoas que nunca conhecemos, foi muito emocionante, isso nos deu esperança e vontade de continuar o trabalho”, destaca Ana Paula. Além dos animais recebidos, com o dinheiro arrecadado a família pagou parte das dívidas. Interessados em ajudar ainda podem destinar recursos à seguinte chave PIX: 55999232798. Doações de animais podem ser realizadas através dos telefones/WhatsApp (54) 99984.3251 e (54) 999232798. Prevenção Para prevenir a intoxicação de animais por nitrito, técnicos da Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul (Seapi) recomendam algumas práticas: respeitar o intervalo entre a adubação nitrogenada e o pastejo; evitar aplicações em períodos nublados ou chuvosos; adaptar gradualmente os animais a pastos recém-adubados, redobrar a atenção após seca seguida de chuva; oferecer suplementação alimentar para reduzir o consumo excessivo de pastagem de risco.