O Brasil produz mais sustentabilidade do que consegue vender
Na COP30, em Belém, a EY-Parthenon apresentou um estudo calculando que a adoção plena de práticas ESG pelo agronegócio brasileiro poderia gerar R$ 247 bilh...
Na COP30, em Belém, a EY-Parthenon apresentou um estudo calculando que a adoção plena de práticas ESG pelo agronegócio brasileiro poderia gerar R$ 247 bilhões ao ano e evitar mais de 328 milhões de toneladas de CO₂. O número é significativo, mas revela menos sobre o futuro do que sobre o presente. Se o potencial é desse tamanho, por que o agro brasileiro ainda enfrenta resistência reputacional nos mercados que mais pagam por sustentabilidade? A resposta passa por um diagnóstico que o setor ainda reluta em fazer. Certificação, relatório ESG e meta climática deixaram de ser vantagem competitiva. A Resolução 193 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) tornou obrigatória, para companhias abertas, a divulgação de relatórios de sustentabilidade no padrão do Conselho Internacional de Padrões de Sustentabilidade (ISSB) a partir do exercício de 2026. O Plano Safra oferece desconto nos juros para quem tem certificação ambiental. Segundo a KPMG, 93% das grandes empresas brasileiras já publicam relatórios de sustentabilidade. Quando quase todos os competidores apresentam os mesmos documentos, o documento em si perde capacidade de diferenciação. Sustentabilidade declarada virou mesa de entrada. O problema é que essa commoditização acontece exatamente quando o jogo muda de patamar. Entre 2026 e 2029, cinco agendas regulatórias convergem sobre o agro brasileiro de forma inédita. O acordo União Europeia-Mercosul entra em aplicação provisória, abrindo cotas relevantes de carne e etanol, mas exigindo compromisso com o Acordo de Paris como elemento essencial. O Regulamento da União Europeia contra o Desmatamento (EUDR) passa a exigir rastreabilidade até a parcela de terra para soja, gado, café e madeira vendidos à União Europeia. O CBAM europeu cobra certificados proporcionais à pegada de carbono de produtos importados, com fertilizantes já no escopo e commodities agrícolas previstas nas revisões periódicas. E o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) inicia a regulamentação de cerca de cinco mil empresas emissoras. Cada uma dessas agendas, isoladamente, já demandaria adaptação. Juntas, elas criam um cenário em que compliance ambiental se torna infraestrutura de comércio exterior. A pergunta que qualquer empresa do agro que exporta deve fazer a si mesma neste momento é se o mercado de destino reconhece, entende e valoriza o que ela faz. Globo Rural Essa é a pergunta que separa empresas que acumulam relatórios de empresas que constroem marca. O Brasil preserva 246 milhões de hectares de vegetação nativa em propriedades rurais, segundo o estudo mais recente da Embrapa Territorial. O Plano ABC (Agricultura de Baixo Carbono) superou suas metas em 46,5% entre 2010 e 2020, e o ABC+ agora persegue uma meta sete vezes maior até 2030. A integração lavoura-pecuária-floresta já ocupa 17,5 milhões de hectares. Nenhum outro país agrícola opera com esses números em escala equivalente. Ao mesmo tempo, a Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) monitorou 79 mil publicações negativas sobre o agro brasileiro no X (antigo Twitter), com alcance de 390 milhões de pessoas, geradas majoritariamente na Europa e nos Estados Unidos. A distância entre o que o setor faz e o que o mundo percebe tem custo financeiro direto em acesso a mercados premium e precificação de créditos de carbono. A Boston Consulting Group conduziu pesquisa com 1.350 agricultores brasileiros e concluiu que 80% consideram sustentabilidade importante, mas apenas 14% a veem como fator-chave para o sucesso do negócio. Esse contraste resume o problema. O produtor reconhece a relevância da agenda, mas ainda não enxerga retorno financeiro direto o suficiente para tratá-la como prioridade estratégica. O retorno, no entanto, já está documentado pelo lado da demanda. A pesquisa da PwC com 20 mil consumidores em 31 países indica que 80% estão dispostos a pagar em média 9,7% a mais por produtos com credenciais sustentáveis comprovadas. O que falta entre o produtor brasileiro que já opera de forma sustentável e o consumidor global disposto a pagar mais é uma narrativa de marca que torne essa conexão legível para o mercado de destino. As próximas três safras vão definir quem captura esse valor. Cada empresa do agro já investiu em certificação e relatório ESG. A decisão pendente é se esses investimentos vão funcionar apenas como custo regulatório ou como ativo de posicionamento. E essa decisão, na prática, depende de tratar a narrativa de marca com dados de carbono como infraestrutura de acesso a mercado, e não mais como acessório do relatório anual. *Diogo Luchiari, sócio & VP de Atendimento e Operações da Macfor As ideias e opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seu autor e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial da Globo Rural