Recordista de produtividade de trigo vai reduzir área neste ano
O agricultor Paulo Bonato ostenta o recorde de produtividade do trigo no Brasil. Em 2021, ele atingiu a marca de 160,5 sacas por hectares em uma área irrigada....
O agricultor Paulo Bonato ostenta o recorde de produtividade do trigo no Brasil. Em 2021, ele atingiu a marca de 160,5 sacas por hectares em uma área irrigada. Cinco anos depois de fazer história, ele está reduzindo a área de plantio, em Cristalina (GO), no Cerrado, região que se destaca como uma nova fronteira produtiva. Ele alega que, embora o cereal seja bom para a rotação de culturas, o preço não está compensando. “Planto, em média, 280 hectares por ano, mas agora só vou plantar 100 hectares de trigo irrigado e 80 hectares de sequeiro. O preço internacional caiu muito e a Argentina (que exporta o grão para o Brasil) está plantando mais. Aqui tem que produzir bem para pagar a conta. Sou apaixonado pela cultura do trigo, mas não dá para pagar para trabalhar. Tem que ter alguma viabilidade econômica”, diz. Segundo ele, o clima neste ano alongou o ciclo da soja em Cristalina, e a janela de plantio do trigo atrasou. No ano passado, o resultado do trigo já não alcançou o teto que ele esperava. No sequeiro, por exemplo, o custo de produção foi de 37 sacos, mas ele colheu apenas 27, porque faltou chuva na sua fazenda. “Sou muito detalhista. Não planto para fazer só o básico. Aplico sempre os tratos culturais adequados, porque o objetivo é sempre me superar e obter produtividade máxima”, diz o gaúcho, que mora há 47 anos em Goiás e, além de trigo, cultiva mil hectares de soja, milho semente, milho grão, sorgo e feijão. Além da rotação de culturas, ele investe em plantio e colheita mecanizada e agricultura de precisão. Na fazenda, mantém pivôs e sondas no solo para identificar a real necessidade de água da cultura. Paulo Bonato, produtor: "Falta uma política agrícola que valorize o nosso trigo para ficar competitivo" Paulo Bonato/Arquivo Pessoal Para o produtor, os aumentos do diesel e da energia elétrica também pesaram muito na conta, especialmente do trigo irrigado. “Falta uma política agrícola que valorize o nosso trigo para ficar competitivo e dar segurança ao agricultor”, afirma. Bonato planta cultivares de trigo desenvolvidas pela Embrapa para o Cerrado, como a BRS 264 e BRS 265, além de uma variedade da indústria de sementes privada OR. Entrega sua produção na Cooperativa Agropecuária do Distrito Federal (Coopa-DF) e dá prioridade de plantio para os tipos de trigo mais demandados pela cooperativa. O agricultor diz que o plantio de trigo tem muito potencial para continuar crescendo no Cerrado, desde que haja um custo compatível. Segundo ele, o grande gargalo é a comercialização, já que os moinhos brasileiros importam trigo da Argentina, parceira do Mercosul, sem tarifação. O preço internacional caiu muito e a Argentina (que exporta o grão para o Brasil) está plantando mais. Aqui tem que produzir bem para pagar a conta." Julio Albrecht, pesquisador da Embrapa em Brasília e melhorista de trigo há 30 anos, concorda que a comercialização no Cerrado ainda é um gargalo, embora novos moinhos tenham sido instalados na região, como o de Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia. O pesquisador diz que, além da alta qualidade, o trigo leva vantagem sobre o da região sul porque é o primeiro a ser colhido no ano. Em junho, começa a colheita do sequeiro e um mês depois já inicia a colheita do irrigado, que vai até setembro. Além do preço, a brusone Mariza Stuani, produtora de grãos em Paranoá, no Distrito Federal, também não está satisfeita com o preço do trigo, que não tem acompanhado o aumento dos insumos como ureia e energia elétrica. Ela inicia em abril o plantio de trigo melhorador, mas depende da demanda da cooperativa para definir sua área de plantio a cada ano, que varia de 70 a 120 hectares. Além de trigo, planta soja, milho e sorgo. Neta de italianos que vieram para o Brasil plantar café, Mariza diz que tem experiência de 30 anos com trigo e, antes de se mudar para o DF, já fornecia o cereal para a Bunge em Minas. Embora receba 15% a mais pelo trigo melhorador, ela diz que a produtividade dessa variedade é inferior à de outros trigos e seu custo de produção é mais alto. Initial plugin text O catarinense Odacir Bortoncello, que chegou em 1996 a Cristalina para plantar grãos, também deve reduzir um pouco sua área de trigo safrinha neste ano. Ele planta entre 200 e 400 hectares do grão, mas não deve chegar a 180 hectares. Diferentemente de Bonato e Marisa, ele cultiva apenas o trigo de sequeiro, que exige um investimento menor, e diz que mantém a cultura mesmo em anos de preço mais baixo porque aprendeu a trabalhar com as variações do mercado. “O custo de produção está em torno de R$ 2.500 por hectare. Cultivo trigo há oito anos e peguei os macetes do mercado: travo o preço para garantir uma margem lucrativa”, explica. Ele conta que começou com uma produtividade de 50 sacas por hectare, foi aumentando e já atingiu 80. O segredo, diz, é aproveitar a janela de semeadura, usar cultivares com potencial mais produtivo e investir em manejo de solo, fertilização equilibrada e genética. Odacir Bortoncello, agricultor: "Peguei os macetes do mercado: travo o preço para garantir uma margem lucrativa" Arquivo Pessoal Bortoncello destaca que o trigo produzido no Cerrado é o de melhor qualidade do Brasil, mas o grande desafio da cultura é a brusone, principal doença que atinge a lavoura na região. Para estudar o controle da brusone e testar novas variedades, o produtor cedeu uma área de 2 hectares de sua fazenda para a instalação de um centro de pesquisas da Embrapa e das empresas privadas Biotrigo e OR. No ano passado, pesquisadores do Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo, que tem sede no México e mantém parceria com a Embrapa, visitaram a propriedade para conhecer as pesquisas. Em Sacramento, Minas Gerais, a Agromil produz sementes de trigo (e soja) há cerca de 30 anos. Segundo Rodolfo Nunes Rocha, agrônomo da empresa, antes o trigo entrava na fazenda apenas como rotação de culturas para fazer palhada e melhorar a condição do solo, prática que mudou há dez anos. “Vimos a oportunidade do trigo para agregar mais valor e passamos a produzir sementes”, diz. Todos os anos, são cultivados na fazenda Bela Vista da Agromil, fundada por Jamil Miguel, de 1.400 a 1.500 hectares de sementes de trigo sequeiro na safrinha, logo após a colheita da soja. O plantio começa em 20 de março, quando a temperatura baixa para cerca de 14 graus, para evitar a brusone. O custo de produção das sementes, segundo Rocha, é 50% maior do que o trigo grão porque exige adubação pesada, maquinário mais novo, aplicação de fungicida a cada dez dias e outros manejos. Antes da venda, as sementes, muito suscetíveis a carunchos, são tratadas com inseticida. O beneficiamento segue até novembro. Ligia Miguel, diretora da Agromil: Tecnologia beneficia produção de trigo no Cerrado brasileiro Arquivo pessoal Ligia Miguel, neta do fundador que dirige a Agromil atualmente, diz que o aumento da tecnologia tem beneficiado a produção de trigo no Cerrado, mas há espaço para mais expansão. Credenciada pela Embrapa, neste ano, ela vai multiplicar a nova variedade Savana e espera ter resultados melhores do que no ano passado, quando a escassez de chuva prejudicou a produção. Segundo ela, o trigo representa atualmente 15% do faturamento da Agromil e, seu plantio melhora a produtividade da soja que ocupa a terra depois. Por isso, mesmo quando se perde a janela ideal, o trigo é plantado como cobertura de solo.