Saiba quais produtos do agro podem ter mais impactos com a guerra no Oriente Médio
A guerra no Oriente Médio, envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, tem gerado efeitos econômicos e logísticos que afetam diversos setores do agronegócio b...
A guerra no Oriente Médio, envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, tem gerado efeitos econômicos e logísticos que afetam diversos setores do agronegócio brasileiro. As dificuldades causadas pelo conflito, como aumento dos custos de combustíveis e de fretes, seguros mais caros e fechamento de rotas marítimas e aéreas, afetam vários produtos agropecuários. Análise divulgada nesta quarta-feira (25/3) pela consultoria Datagro detalha as principais vulnerabilidades de produtos agropecuários brasileiros com o conflito no Oriente Médio. Entre os mais afetados, estão açúcar, milho, carne de frango e suco de laranja. Já carne suína e algodão são menos impactados, enquanto café ganha vantagens competitivas. Veja abaixo como a guerra afeta algumas das principais exportações agropecuárias do Brasil. Milho Apesar dos indícios de trégua no conflito armado entre EUA e Irã, que também envolve alguns países do Oriente Médio, a tensão geopolítica ainda pode afetar a dinâmica do mercado de milho no Brasil. Em boletim, a Datagro disse que a continuidade da guerra pode afetar os embarques de milho do Brasil, diante do aumento de custos logísticos, e eventual adiamento de compras, que podem “causar sobreoferta doméstica no segundo semestre (usual janela de exportação de milho) e alguma pressão aos preços domésticos no Brasil”. Ainda segundo a Datagro, o Oriente Médio recentemente passou a responder por 30% dos embarques do cereal brasileiro. Em 2025, os envios à região somaram aproximadamente 12,9 milhões de toneladas, ou 31,5% do total, com destaque para o Irã, responsável por cerca de 22% das importações. Entre janeiro e fevereiro deste ano, as compras de milho dos iranianos superaram 1,3 milhão de toneladas. A consultoria também avaliou o impacto da guerra no Oriente Médio para o complexo de soja do Brasil, acrescentando que os efeitos do conflito para esse segmento são limitados. Com pouca relevância nos embarques de soja brasileiros ao Oriente Médio, a Datagro lembra que o foco das vendas permanece na China, seguida pela Espanha, Tailândia e Turquia. Segundo a consultoria, esse panorama limita potenciais impactos dos conflitos sobre a pauta exportadora de soja em grão. Ademais, a empresa disse esperar “que o impacto dos conflitos para a cadeia de soja seja concentrado sobre fretes encarecidos e potenciais incrementos na demanda por biocombustíveis”. Leia também Guerra expõe elo vulnerável do agro brasileiro Por que a guerra no Irã fez disparar o preço dos fertilizantes Guerra pode causar aumento no preço de frangos, suínos e ovos, diz setor Açúcar e etanol O Brasil exporta uma parcela relevante de seu açúcar para o Oriente Médio, mas é capaz de encontrar outros destinos para o produto, avaliou a consultoria Datagro. Em 2025, os embarques de açúcar do Brasil para o Oriente Médio totalizaram 5,77 milhões de toneladas, o equivalente a 17,1% de todo o volume embarcado pelo país no ano e a 13,2% de toda a produção nacional no período. Do total da receita obtida com as exportações de açúcar no ano passado, o Oriente Médio contribuiu com 16,9%, ou US$ 2,38 bilhões. Na região, o principal destino é a Arábia Saudita (1,8 milhão de toneladas), seguida por Emirados Árabes Unidos (1,7 milhão de toneladas), Iraque (907 mil toneladas), Irã (500 mil toneladas) e Iêmen (427 mil toneladas). Em janeiro e fevereiro deste ano, o Oriente Médio representou 32,1% de todo o açúcar exportado pelo Brasil, ou 1,3 milhão de toneladas. Apesar da alta concentração dos embarques para os países da região, o Brasil também exporta volumes relevantes para outros mercados, como China, Índia e Argélia. Em 2025, o mercado chinês foi o principal destino do açúcar brasileiro, absorvendo 14% de todas as exportações do Brasil. O mercado indiano, por sua vez, representou 7,8% do total embarcado, e o argelino, 6,3%. Já as exportações de etanol do Brasil para o Oriente Médio são pouco expressivas. A própria atividade exportadora de etanol do Brasil é pouco representativa dentre toda a produção nacional, e só representou 4,4% do que as usinas fabricaram em 2025, segundo a Datagro. Apenas o volume de etanol embarcado para os países do Oriente Médio foi de 14,3 milhões de litros, o que representou 0,91% das exportações brasileiras e apenas 0,04% da produção nacional. Carne de frango As exportações brasileiras de carne de frango e demais aves possuem “vulnerabilidade evidente” diante da escalada das tensões no Oriente Médio, destaca a Datagro. De acordo com a consultoria, somam-se às dificuldades de internalização das cargas em nações do Golfo Pérsico também os riscos indiretos de elevação de fretes, seguros e similares. “As exportações brasileiras de produtos avícolas são mais dependentes das remessas para países e regiões em conflito no presente se comparadas às vendas externas de carnes vermelhas”, lembra a Datagro. Cerca de 30% dos embarques brasileiros de carnes de aves são consistentemente destinados ao Oriente Médio, afirma. Suco de laranja A guerra no Irã não deve trazer impactos significativos para o comércio internacional de suco de laranja do Brasil, líder em exportações do setor no mundo. Segundo análise da Datagro, a exposição das vendas brasileiras de suco a regiões em conflito, como Oriente Médio, Rússia e Ucrânia, é bastante limitada. “Em 2025, o Oriente Médio absorveu cerca de 3,46 mil toneladas (de suco de laranja do Brasil), o equivalente a apenas 0,16% do volume total exportado, enquanto a Rússia apresentou participação praticamente nula”, afirmou a consultoria em relatório. Em termos de receita, essas regiões em conflito também representam menos de 1% do total. “Dessa forma, a persistência de tensões geopolíticas nessas áreas tende a exercer impacto marginal sobre o desempenho das exportações brasileiras de suco de laranja, ao contrário do observado em commodities com maior diversificação geográfica de demanda”, enfatizou. O Brasil mantém ampla liderança nas exportações globais de suco de laranja, com embarques estimados pela Datagro em cerca de 954 mil toneladas no ciclo 2025/26 — volume equivalente a 94,18% da produção nacional e que supera com folga os volumes fornecidos por concorrentes, como União Europeia (115 mil toneladas) e México (81 mil toneladas). Neste contexto, a consultoria ressalta que as exportações brasileiras de suco permanecem fortemente concentradas em destinos tradicionais, especialmente União Europeia e Estados Unidos, que corresponderam a 97,4% do volume exportado em 2025. “Esse desempenho evidencia a elevada competitividade do país e seu papel estrutural no abastecimento do mercado internacional”, pontuou a Datagro. Café A cafeicultura brasileira deve sofrer com impactos indiretos da guerra no Oriente Médio, como a elevação nos preços de fretes, maior tempo de trânsito e dos custos com insumos agrícolas, especialmente fertilizantes. Entretanto, a consultoria Datagro avalia que o café robusta do Brasil pode ganhar espaço no mercado externo frente ao grão fornecido por países como Vietnã e Indonésia, que são mais prejudicados por gargalos no entorno do Canal de Suez. “Nessa conjuntura, o encarecimento e o alongamento das rotas dessas origens (Vietnã e Indonésia) podem reduzir sua competitividade relativa, favorecendo principalmente o café robusta nacional, tradicionalmente mais voltado ao consumo interno”, disse a consultoria em relatório hoje (25/3). A oportunidade para o Brasil seria no atendimento ao mercado europeu, onde o país compete com outras origens de café. Do ponto de vista de demanda, a Datagro ressalta que a pauta exportadora nacional segue concentrada em mercados consolidados, como União Europeia e Estados Unidos, ao mesmo tempo em que se beneficia de uma base ampla e diversificada de destinos, o que dilui os riscos. “O perfil das exportações brasileiras de café sugere baixa exposição direta às principais regiões de conflito da atualidade, especialmente Oriente Médio, Rússia e Ucrânia. Em média, esses mercados responderam conjuntamente por cerca de 6% da receita cambial gerada pelos embarques brasileiros de café, o que indica impacto direto limitado sobre a balança comercial, mesmo em um cenário de interrupção total dos fluxos”, afirmou a consultoria. Segundo a Datagro, as exportações de café do Brasil estão estimadas em 40,75 milhões de sacas de 60 kg na safra 2025/26 e o Vietnã vem logo atrás no ranking global, com 27,9 milhões de sacas. Algodão Sem exportações relevantes para o Oriente Médio desde 2022, a cotonicultura brasileira tem baixa exposição aos riscos associados à guerra entre EUA, Israel e Irã na região, segundo avaliação da Datagro. Naquele ano, foram exportadas 150 toneladas da pluma para os Emirados Árabes Unidos, o equivalentes a aproximadamente US$ 47 mil e a 1% da receita registrada no período. Em nota, a consultoria destaca que os embarques brasileiros de pluma concentram-se em mercados asiáticos, com destaque para a China, que, nos últimos cinco anos, respondeu por algo entre 19,7% e 52,0% do volume exportado. “Consequentemente, espera-se que o impacto dos conflitos para a cadeia de algodão seja concentrado sobre fretes e prêmios de seguro encarecidos e potenciais incrementos na demanda pela fibra, considerando-se elevação de custos de produção sobre as fibras sintéticas (como polyester), que usam petróleo enquanto matéria-prima”, conclui a Datagro Carne suína A exportações brasileiras de carne suína não devem sofrer impacto direto por conta da escalada da guerra de EUA e Israel contra o Irã, segundo avaliação feita pela Datagro. De acordo com a consultoria, “com a perda de relevância do mercado russo para as vendas externas brasileiras de carne suína, a vulnerabilidade das exportações de carnes vermelhas do Brasil nas remessas para regiões em conflito hoje se restringe à carne bovina”. A empresa, contudo, ressalta que o aumento dos custos de frete marítimo e dos combustíveis ainda é um ponto sensível para o setor. “Cabe destacar também o risco indireto de elevação de fretes e seguros marítimos para as exportações brasileiras de carnes vermelhas de forma mais ampla, em especial após a escalada recente no Oriente Médio”, alerta a Datagro.